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domingo, 15 de junho de 2008

Manipulação

Começou quando a esposa insistiu na contratação daquela jovem. Acaso têm os jovens efeitos inebriantes? Era de se esperar o resultado. Ele, 45 anos, corpo de 43 com malhação, rico e bonito. Ela, 17 anos, corpo de 17 com malhação, pobre e desinibida. Os primeiros passos foram sorrateiros, como convém quando se quer testar o terreno. Ela passava fingindo desatenção, deixando cair o espanador bem próximo dele, abaixava-se para pegar tomando o cuidado de esbarrar seu quadril no dele, que fingia examinar discos antigos na sala de estar. Depois, vieram os comentários, “nossa, o senhor deve se exercitar bastante, né seu João?”, “gostei do novo corte de cabelo, seu João”. Daí ao flerte despudorado, foram dois ou três olhares desejosos, “duvido o senhor me dá um beijo aqui e agora, o senhor não tem coragem”. Ante a negativa (ele queria, mas não devia), ela apelou “se o senhor não me dá um beijo eu digo pra sua mulher que o senhor anda se esbarrando em mim de um jeito estranho, ela vai ficar uma fera”.

O casamento que fosse para os diabos, agora era com ele, “menina nova não brinca assim comigo”. Homem não tem jeito, aperta que espana. Mas, e isso ele lembrou logo, o sexo tinha se tornado algo casual, praticado religiosamente às sextas-feiras depois da novela. Fazia-se de qualquer jeito e dormia-se muito. “Será que eu dou conta de uma moça assim? Será que eu ainda levo uma garota à loucura? Será?”. Só pagando para ver.

A coisa toda se programou de telefonemas e bilhetes escondidos. Quinta. Ele sairia mais cedo. Ela não iria trabalhar, combinaram um bar afastado, que se freqüentava de gente pouco observadora. E então o motel mais afastado. E assim foi. Aqui entrariam algumas linhas a respeito do resultado entre quatro paredes, mas não faria qualquer diferença para a história. Na saída, o problema: a irmã de sua mulher resolvera levar o novo namorado ao mesmo motel, no mesmo dia, apenas 23 minutos mais tarde.

Claro está o final dessa história. A moça perdeu o emprego, a que ela jamais deu o devido valor, suas intenções eram outras. Resta-nos o senhor João. Diante desse absurdo, a coisa toda nunca fica impune. Advogado famoso na cidade, o caso correu de ouvido em ouvido todo o pequeno município. Os clientes começaram a rarear. Mas esse era problema menor. Com o tempo a fofoca desaquece. O problema foi em casa mesmo. Terminou quando a esposa insistiu na assinatura do divórcio.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Zílio

Quando em meio a papéis sem assinatura e borderôs sem carimbo, uma moça se aproximava visivelmente mais preocupada em discutir os valores de sua apólice de seguros, Zílio suava a fronte branca de homem de escritório. Odiava sem saber o porquê. Tinha um ódio enorme de se saber tímido o suficiente para um primeiro contato com qualquer pessoa do sexo oposto, burro o suficiente para um galantear qualquer, feio o suficiente. Zílio é como eu e você. Só um pouco mais humano, mais honesto, mais tímido, mais burro e mais feio. Se ele soubesse que assim são muitos corações que se disfarçam em rapinante. Creia Zílio, a vida não é realmente algo que compensa a paga de viver.

Apenas Zílio por nome. Jamais se dera ao duelo de morte que o levaria ao fim certo. Aquele ser ignoto das gentes vivera recôndito dentro do mundo. Uns, de pronto, chamariam mentira; outros, melindrados, não acreditariam que pudesse brotar entre as gentes tão honesta figura. Um homem simples que nunca quis ser além de um passageiro de vida, medíocre. Vez ou outra sonhara um sonho amalucado de ser feliz. Mas não é dado ao humano ser feliz. Isso ele aprendera fácil. Aprendera quando descobriu que seria sozinho no mundo. Para sempre.

A única palavra que lhe valera algo em vida foi essa: honestidade. E a ignorância alheia insistiu em nomear estupidez. Zílio não dá passo em falso, não quer o do outro. Sequer imaginava ser de direito o que era seu, por direito: a própria vida. Colocou sempre em mãos diversas o destino que só a ele pertencera. Pobre homem que não falha, o que já é falha grave. Tomou mais um gole antes de pagar mais do que deveria de conta e gorjeta. Percebeu que chovia ainda, adiantou-se até a beira da rua e deu sinal ao táxi. Hora de voltar, obviamente sozinho, ao lar.

Zílio era bom para a família, por isso ninguém lhe dava o devido respeito. Então ser bom é errado nesse mundo? É isso que se recebe por não querer além do próximo metro? Olhavam-no com o devido cuidado, um estranho ser de carne e osso que o mais disparatado espectro ultrapassaria em credibilidade. Não. Não é possível que exista coisa assim num mundo como o nosso. Um homem que trabalhe honestamente, e viva honestamente, insira-se no mercado consumidor honestamente, que honestamente chore em comédias românticas no cinema vazio. Se Zílio entendesse de artes-plásticas, música ou futebol, talvez tivesse consolo. Mas ele é outro.

domingo, 6 de abril de 2008

Financiomas

Este é um conto de amor novo-burguês, le nouveau riche des histoires romatiques. Caminhavam de mãos dadas. Dispa-se a noção gloriosa dos que caminham por prazer e romantismo. Feito a falta de recursos, o namorico ia a pé, por não poder ir melhor, fizesse chuva, fizesse sol. E eles gostavam de ir a pé, como gostavam de não poder ir ao cinema porque a câmara-de-ar da bicicleta dele rasgou e, "agora o dinheiro era pra consertar, senão, não dá pra trabalhar amanhã cedo". Tinha que regular e controlar. Como não dava para se fazer muita coisa, sobrava tempo para os carinhos, só para os carinhos, "porque em casa não dá, minha vó tá lá e não tem dinheiro pro motel". E eles vão ficar no carinho, ou vão caminhar.

Um dia ele encasquetou que ia pôr garupa na bicicleta, agora com o pneu ajeitado. Mas a moça não era o que se pode chamar de um símbolo de beleza, e apesar da humildade, notava-se que comia bem, demais. E ela começou a reclamar que "estava doendo a bunda", e chegava aos destinos andando torto. Natural, três quartos dela ficavam para fora da bicicleta, esperando a gravidade fazer marcas vermelhas profundas. Ficava ridícula, digamos assim. O outro problema, é que se ela chegava vermelha e dolorida, ele também. O peso da bicicleta aumentou muito depois que ele instalou a garupa, que vazia era "até levinha". Uma gemendo de dor, o outro gemendo de cansaço, eram uma sensação onde quer que estivessem.

Ele ficou entre trocar o quilo de acém por patinho "só dessa vezinha", ou comprar um bilhete da federal. Como a carne "a gente amacia na pressão", vai de sorte mesmo. Escolheu a sua data de aniversário. E, romântico, a dela. 02-10-25-07. Faltam duas dezenas. 36-45. "O número de casa". E, como se o destino realmente existisse, ele ganhou. Sozinho. Descontou a parcela de impostos e o restante aplicou em fundos de renda fixa. Na verdade, quem fez isso foi o advogado que ele contratou assim que soube o resultado. Cortou cabelo, escolheu roupa e foi pedir a moça em casamento. "Dava pra viver de renda". Só com aluguel de casa. "Daí dá tempo pra estudar".

Ela fez o que ele falou. Matriculou-se em uma faculdade particular. Foi fazer administração "porque alguém ia precisar cuidar desse dinheiro todo". Ele não. Ele foi comprar presente "pros parente de fora". Foi comprar o carro que sempre sonhou. E, no fim da tarde, foi atrás da cortina que ela pediu "pra combinar com o sofá marrom". O resultado é previsível. Ao fim de um ano, ele estava completamente desregrado, bebendo e gastando mais do que devia, mesmo para os que tem fortuna na casa dos milhões. Porque agora tinha carros potentes, porque agora era motel quase todo dia. E não era com ela. Porque agora a humildade era intelectual, muito mais feia que a mais feia humildade financeira.

O divórcio saiu rapidamente. A metade dela cresceu. O moral dela cresceu. A parte dele não resistiu à primeira enxurrada de lamentações pós-casamento. Deu-se à festa como quem se entrega ao suicídio. Seu moral diminuía à exata proporção de seus recursos. Pouco a pouco ela se restabeleceu. Conseguiu abrir uma firma que prestava consultoria empresarial. Casou-se novamente. Com o advogado que a ajudava a administrar o dinheiro que o primeiro marido insistia em queimar. Teve filhos, andava em um bom carro familiar, espaçoso, e ia vez ou outra ao motel para relaxar junto a seu amável esposo novo, pois "era só chamar a babá". Ele foi aos poucos deteriorando sua fortuna. passo a passo voltando ao estado de semi-miséria inicial. Nessa época, numa casa de penhores, conheceu uma moça humilde, mas feliz e bem feita de corpo. Passou a sair com ela. Eles iam caminhar na praça, ou de bicicleta, que era o único bem que lhe restou. Essa moça cabia bem na garupa.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Das raízes sólidas

- Seu namorado é um bunda mole!
- Por quê?
- Onde já se viu? Deixar a mina sair sozinha?
- Cala a boca!
- É sério! Se fosse eu, não tinha disso não. Tá cheio de cara por aí que não agüenta ver uma mina sozinha e já pula em cima.
- Por isso que você não arruma ninguém. Seu ogro!
- Fala a verdade...
- Quê que tem? Pra dar certo tem que confiar, né?
- Besteira. E tem mais... O problema não o que a mina faz... é o que os caras fazem... ficam cercando. Chega a dar raiva, porra! Eu sinto raiva por você... por você e pelo banana do Cláudio.
- Ele não pediu pra você me vigiar. E nem eu pedi. Então pára com esse negócio que já tá ficando chato! Cadê aquele garçom?
- O que eu tô querendo dizer é que, se gosta mesmo, tem que cuidar, caralho!
- Pára, Ivan!
- Mas Juliana...
- Garçom! Me traz uma tequila, por favor...
- Sim. Já trago.
- Mas... Você ficaria tranqüila se o Cláudio saísse sozinho?
- Claro! Se eu não acreditasse nele, não teria porque ficar. Ou teria?
- Sei lá. Tem gente que namora só pra não ficar sozinho.
- Com a gente não é assim. Tô com ele porque gosto. E ele também...
- Traz uma Skol pra mim, moço...
- A gente não trabalha com Skol. Serve Antártica...
- Tá gelada?
- Muito...
- Pode ser então.
- Já venho.
- Mas então, Ju... Eu sei o que você tá dizendo... Só que eu não acredito nessas coisas de confiança... Nada a ver, meu!
- Você vai morrer solteiro.
- Haha!
- Fica rindo, fica... Moço, já pode trazer a conta...
- Sim, senhora.
- Vamos embora?
- Vamos... Não agüento mais discutir com você...
- Porque você sabe que eu estou certo.
- Cada um pensa o que quer. Eu e o Cláudio... A gente não liga pro que os outros dizem. Por isso que dá certo.
- Faça o quiser...
- Exato.
- Vamos pra minha casa?
- Pode ser. Mas vamos pegar cigarro antes... Vai ter alguém lá?
- Não... Ninguém... O Alex foi pra Guarulhos, e o Marcelo está trabalhando essa noite.
- Ótimo. Eu morro de vergonha dos seus amigos...
- É porque você não consegue fazer nada em silêncio...
- Cala a boca!
- Hahaha! Tá aqui, moço... Fica com o troco.
- Obrigado.
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Image Hosted by ImageShack.usLerdo tem uma enorme dificuldade para entender os humanos. Mas não adianta dizer-lhe que isso é natural. "Nem nós humanos nos entendemos", eu expliquei certa vez, mas não adiantou. E ele insiste que esses diálogos tão corriqueiros merecem alguma notoriedade. Diz que é história das boas. Pobre furgão. Ele não sabe que há certas coisas que todo mundo já conhece.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Fausto e seus fantasmas

Voltar para casa de madrugada por aquela rua era sempre um martírio. Mesmo de carro. Um lugar sombrio, desértico. Sempre pensava no pior, Fausto, natureza pessimista. Pensava que algo sempre daria errado. Medo. Como quando viu de longe uma luz que lembrava a de um farol de uma moto, mas muito próxima ao chão, e estática. Sem meios para dar a volta, resolver acelerar, qual nada. Já na terceira marcha percebeu claramente que não se enganara, era de fato uma moto, caída, e um corpo deitado ao lado, movendo-se com lentidão. Pensou em parar, mas o temor de que se tratasse de uma cilada era enorme. Resolveu passar bem devagar, observando todas as sombras, e já preparado para uma arrancada, se necessário fosse. Ao passar ao lado da cena, pôde perceber uma moça, baixa estatura, pois quase toda encoberta pela moto, uma 100 cilindradas de pequeno porte. Os cabelos parecias sujos, constatação óbvia, pois estavam esparramados pelo chão. Nesse momento percebeu que a moça tentava se levantar, sempre olhando fundo na direção de seus olhos. Ainda com o carro em movimento, e com uma coragem injustificável, resolveu tentar contato:
– Tudo bem aí, moça?
– Bem num tá, né?

Diante da voz dolorida, seu medo dissipou-se. Resolveu parar o carro e descer. Não sem antes assegura-se de que havia trancado tudo. Caminhou desconfiado, sem ao menos perceber que vestia apenas um short minúsculo que usava para dormir e uma regata não menos ridícula. Parado a poucos passos da moça, pergunta:
– Consegue dar partida?

– Eu tô bêbada, moço!
A voz e os olhos não negavam. Mas ele estava mais preocupado era em justificar aparência tão cômica:
– Eu fui levar meu irmão à rodoviária. Como você pode ver. Nem trouxe o celular. E...
– Celular eu tenho aqui. Problema não. É que eu moro sozinha. E se eu chamar um táxi, onde vou deixar essa moto? A senhor encosta ela pra mim ali?
Nessa hora, em que ele estava tentando levantar a moto, sentiu-se novamente desprotegido, e o medo voltou. Mal controlava as própria pernas. Tremia tanto que parecia que o bêbado era ele. Não conseguia sequer ativar o "ponto-morto", para poder manobrar. A garota aparentava, pelo jeito de se vestir, ser muito humilde, daquelas que batalham por salário mínimo e chama as colegas de loja de "amigas".
– Para onde você estava indo, moça?
– Pra zona sul, ué.
A resposta fez a pergunta parecer evidente demais. Ela deve ter imaginado que, ao vê-la de perto, com roupas humildes, maquilagem nenhuma, uma motocicleta já velha, qualquer um pudesse supor que ela morava na zona sul. Onde moram os pobres. Parecia, pelo modo como a resposta chegou a seus ouvidos, que ali o preconceito era dela, como se não suportasse a própria condição. De pobre e de bêbada. Passando vergonha às 2 da manhã. Mas sabia a pobre coitada que o envergonhado ali era ele, pelos trajes e pelo tremor que não mais passava.
– Aceita um cigarro?
– Vô aceitá sim.
– O que você vai fazer?
– Vô tentar chegar assim mesmo.
– A moto continua funcionado?
– Sabe que eu não sei. Você pode ver pra mim?
– Claro...
Cada resposta soava desafiadora. Era um covarde, assumidamente medroso. Era notório que se alguém fosse tentar alguma coisa contra ele, já o teria feito. Percebeu que o que incomodava não era a possibilidade de ser assaltado. O que parecia machucá-lo de verdade era ter que confrontar novamente aquela miséria da zona sul. Da qual ele já tinha se livrado há alguns anos, quando conseguiu uma promoção e mudou-se daquele fim de mundo. Era dolorido rever os bêbados, os pobres. Doía sentir medo de assalto, como doía ter que ficar ali prestando ajuda. Esse problema não era dele.
– Bom, moça. Já vou indo. Se cuida, hein. E vê se vai com cuidado, por favor.

– Eu vou sim. Obrigado, e vá com Deus.
– Que ele te guie.
Jogou a bituca no chão, entrou correndo no carro e partiu jurando fazer qualquer que fosse o caminho para não ter que voltar àquela rua.
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Image Hosted by ImageShack.usLerdo passava por uma rua estranha, quando chegava de uma viagem. Só queria descansar confortavelmente em sua garagem. Mas ao ver um rapaz arrastando uma moto com dificuldades e uma moça que parecia sentir bastante dor, parou para oferecer ajuda.Só teve tempo de ouvi-los conversando.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ensaio sobre a ausência

No minuto em que Mara prometeu a si própria que jamais deixaria aquele banheiro estava selado o destino de todos os povos. Fosse apenas não deixá-lo, os problemas não atingiram tão desmesurada forma, porque seria uma resolução solitária, sem qualquer chance de afetar o cosmos ou sequer a própria familia já acostumada às insólitas decisões da jovem. O que não sabiam os próximos é que a garota resolveu propagandear malfadada atitude. É natural que tenhamos impulsos os humanos, e aqui a silepse confirma apenas minha posição de contador, minha não vivência carnal, ainda que a atitude afete a mim e a meus pares de modo indireto. Nós narradores dependemos quase inteiramente da boa vontade e da busca incessante pela história perfeita que perpassam as mentes autorais, e sem elas nada somos. Contudo, a história é sobre Mara e apenas ela agirá, como fez ao convidar para testemunho integral os jornalistas ordinários, que se aventurassem pelas improprabilidades cotidianas, e que quisessem, de modo a aumentar audiência por vias escusas, atestar o indizível. Indizível sim, tal foi o gesto da garota. E sua idéia tresloucada era que as demais mulheres em idade fértil sentissem como por magia o mesmo impulso pouco ajuizado de não mais entregar-se ao mundo. E o mistério maior é saber que o projeto alcançou dia após dias mais seguidoras, até que não restasse no mundo que se conhece uma só mulher que voluntariamente se entregasse ao ato sublime da procriação. Porque ficou claro pelas regras estabelecidas por Mara, já quase uma nova messias, que ninguém além da própria mulher poderia entrar no banheiro selecionado para o claustro, o que fez com que grávidas desavisadas fosse obrigadas a esperar o parto terminar antes da viagem à solidão. Algumas mais engenhosas criaram inclusive sistemas de ventilação e passagem de alimentos que vedassem qualquer homem mal intencionado de forçar a entrada no desespero do coito há muito cessado. Pronto e feito o destino, em cerca de 100 anos, que é idade já passada para se morrer, toda a humanidade estaria acabada, salvo um ou outro relutante em vias de deixar a vida resistindo ao fim óbvio, que sejam então 120 anos. Era esse o tempo que o homem ainda teria para terminar uma história que até o desvario mariano parecia eternamente interminável, mas não era. E agora, passados mais de 90 deles, eu, seu narrador, apresso-me a deixar esse relato ao limbo, visto que os leitores são já escassos e enxergam mal. Poucos acreditariam-me não fosse a constatação de andar-se à rua e não encontrar alma viva a perambular, restando poucas senhoras ainda em banheiros, que a uma dieta respeitável passam já a marca centenária e teimam em lá permanecer não fazendo a sua e as próximas vidas. O que ainda é pouco sabido, visto que os poucos sabedores já desabitaram esse lado da fábula sem questão de a história transmitir, é que Mara, dias antes de vir a falecer, deixou seu condenável gesto de lado para passar os últimos dias a caminhar pelos quintais de sua própria casa, talvez na tentativa de revigorar os pulmões após anos e anos a respirar o odor muito desagradável de que tem fama os banheiros. Se nunca sobre isso se falou, foi porque a nossa protagonista pediu às poucas testemunhas oculares que guardasse segredo sobre esse último e já mais compreensível gesto. Não queria passar por covarde, ou pessoa sem palavras. E foi assim...
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Image Hosted by ImageShack.usLerdo esteve recentemente em São Paulo carregando materiais para a filmagem de um certo Blindness. Lá conheceu um senhor José que diz ter escrito a história daquele filme. O senhor respirava com dificuldades, mas foi capaz de contar essa história com uma vivacidade incrível.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Metade arrancada de mim.

– Acabou. Eu tinha certeza de que não iria sobrar nada depois do primeiro beijo. Acabou. Só me esforcei para confirmar o que eu já sabia. A verdade é que eu não te amo. Nunca amei, mas isso você sabe... Bem... Eu sempre te disse, não foi?
– Sim. Mas...
– Era só desejo!
– Desejo?
– É. Desejo de provar pra mim mesmo que... Você sabe que eu sou egoísta. Queria provar pra mim que ainda não tinha perdido o jeito. Mas não vai além disso. Eu deveria ir mais um pouco. Te levar pra cama. Mas é perda de tempo. Eu já consegui. Não vou precisar chover no molhado. Te levar pra cama ou não, tanto faz. Mas levaria se eu quisesse.
– Mas e se "eu" quisesse?
– É claro que você quer. Por isso eu não preciso continuar, já te conquistei. E agora vem aquela coisa de jogar fora. Não é verdade. Não se joga fora o que não se tem. Eu não tenho você. Nem quero. Eu queria que você me desejasse, só pra me sentir bem. Enfim, não vou ficar aqui te magoando. Preciso resolver umas coisas.
– Mas você não está me magoando.
– Tá vendo. É por isso que ninguém te valoriza. É por isso que eu não te valorizo. Se eu dissesse que era pra comer minha bosta você comeria.
– É porque eu gosto de você, porra! E...
– Eu já sei que você gosta, esse é o motivo de eu não precisar mais de você. E não aumente o tom de voz. Eu não suporto histeria. Já me convenci de que ainda posso, de que ainda faço o que tenho vontade. E ponho quem eu quiser pra comer na minha mão. Todo mundo fala lá no restaurante que você é o prato principal, o melhor, o que todo mundo quer mais ninguém tem. Grande merda. Agora tá aí. Pedindo pra ser embrulhado e levado pra casa. Credo. Não sei o que é pior: a sua cara de cão-sem-dono ou essa metáfora!
– Eu poderia fazer você sair dessa vida medíocre. Eu poderia te fazer acreditar no amor. No fundo é isso. Eu te amo. Mas você tem medo de...
– Você quer mesmo que eu continue conversando? Porque se quer, pára de falar besteira. Quer saber, já enjoei. Vou dar o fora daqui antes que você me peça em casamento e me prometa roupa lavada. Quanta idiotice. E fala pra sua mãe passar lá no restaurante pra pegar suas coisas, porque se eu tiver que olhar pra essa sua cara de novo, é capaz de eu não conseguir trabalhar. Aliás, muda essa sua cara, pelo amor de Deus. Ninguém mais acredita em homem bonzinho. Tchau Pedro, dá um beijo aqui.
– Lúcia, você é uma puta completa.
– Benzinho... Pense nessas últimas semanas. Você vai ver que a puta aqui era outra pessoa.
– Sua idiota. Você sabe que eu não ligo.
– Liga sim... Aliás, não me ligue, não. Por favor.

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Image Hosted by ImageShack.usLerdo, após várias decepções com uma Vanzinha Paulista, anda meio amargo. É provável que essa história tenha se dado com personagens invertidos. Mas só ele viu. O negócio é acreditar no que o nosso furgãozinho diz.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Micro-cosmos

Lúcia era uma garota bonita, ainda que não se admirasse. Mas precisava encontrar-se. Sentada na varanda, aos pés do avô, questionava:
– Vô! É verdade que minha mãe morreu sem dizer quem era meu pai?
– Sim, Lúcia. Por mais que eu insistisse, ela sempre dizia que não sabia.
– Ele devia ser bonito, né?
– A julgar pela sua cara e a feiúra da sua mãe, com certeza...
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É impressionante a ingenuidade do Marcelo. Dia desses, escutando música na sala, toca o telefone:
– Alô!
– Alô! Maria Amélia é esse telefone mesmo?
– Sim... É minha mãe...
– Ah! Certo... quem está falando?
– É o filho dela, ué!
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– Você não me ama!
– Claro que amo... Pare com isso...
– Mentira. Eu vi o que você fez com a Salete... Pensa que eu sou cega?
– O que eu fiz?
– Acha que eu sou boba?
– Não... Só não sei o que foi que você viu.
– Você ama a Salete... Eu sei! Você só tem olhos para ela!
– Para de se compara com sua irmã! Ela precisava comprar um presente pro namorado. Toma filha! Pega esse maldito cartão e some daqu!
– Brigada Pai, você é demais... Te amo.
– Sei, sei.. Também te amo Giquinha.
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– Pega coxa e sobre-coxa!
– Claro! Alguma vez você me viu escolher outra coisa?
– Vai que você resolve levar peito dessa vez...
– Eu sei que você não come peito.
– Então compra coxa e sobre-coxa...
– Já peguei! Agora para de falar se não eu vou lá e troco por peito...
– Mas eu não gosto de peito!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Das possibilidades...


Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
(Mário Quintana)



A – Começa às cinco e meia. Vamos?
B – Não. Já disse que não embarco nessa outra vez.
A – Reacionário!
B – Que diferença te faz minha participação? Não seria melhor gastar energia procurando meios de defender seu ponto de vista lá na assembléia? Vá! Deixe-me e gaste seu tempo como quiser. A mim, convém continuar aqui. Tenho a impressão de que meus dilemas hoje se resolvem na voz do Quintana.
A – Sim? Aí está algo que me agradaria entender...
B – Não percebeu ainda? Logo você, “entusiasta” do saber crítico. Lembra-se da última assembléia? Não viu o resultado prático? O que aquelas vozes todas em uníssono apregoavam era um “não” único e inquestionável. Houve acaso diálogo sincero? – Olha pra mim! Foi você quem começou! Agora escuta! – Lembra ou não? Uma torrente de revolta canalizada em “braços dados” valha-me Deus! Quase nada de debate, e um exagero de palavras de ordem que minavam qualquer tentativa de posicionamento pessoal. Sob o risco de não comparecer e ser obrigado a ouvir, depois, pessoas como você tachando-me reacionário, como fazem sempre, fui àquela assembléia. Certo é que perdi um tempo precioso na busca de respostas. Mas valeria ter aqui ficado, ouvindo o que a poética tinha a dizer. E tem muito! Por que não experimenta um “Alberto Caeiro” de vez em quando? Ele tem respostas que nem o mais sedento “perguntante” busca. Te ajudaria a entender esse mundo degradado em que a gente vive...
A – Não te valeu estar a par dos problemas que assolam a Universidade? Não te parece válido que jovens levantem a bunda da cama que a mamãe comprou pra tentar resolver um problema que também é seu, enquanto você fica aí, perdido em “filosofia rimada”? Sou capaz de acreditar que você adora o estabelecido? Burguesinho medíocre. É por filhinhos-de-papai como você que o movimento continua lutando. Você deveria aprender com a gente? Se não fossem as incontáveis porradas na cabeça que estudantes vêm levando desde os anos 60, talvez você nem pudesse estar aqui, dizendo asneiras?
B – Tolo... Não é a luta que me desagrada. Há muito de verdadeiro e honesto em tudo isso. Mas a verdade e a honestidade são, a todo o momento, bloqueadas pela voz do grupo. Creio na opinião como creio na estética. Mas há de fato opinião? É possível que dizeres particulares encontrem voz no meio do “movimento”? O que me desagrada é saber que estudantes são transformados em massa de manobra para que uma meia dúzia de pretensos revolucionários ascenda ao poder que tanto critica. Não sou eu que vou levantar minha mão em nome de uma escalada que não é a minha.
A – Você poderia deixá-la abaixada! E convencer outros alienados como você a fazer o mesmo?
B – Não banque o ignorante, você é melhor que isso. Acaso é alienação toda essa nossa discussão? Não vou, nem faço questão de criar seguidores. Não sou dono da verdade. Mas, a minha me basta.
A – Não vê a contradição em que se coloca? Você questiona e critica o movimento. Mas não opina em contrário. Goza as melhorias que os estudantes conquistaram, enquanto critica o trabalho deles. Se te desagrada o nosso projeto, porque não propõe algo novo? É de vozes “críticas” como a sua que o movimento estudantil precisa.
B – Vou fingir que não percebi a ironia das suas palavras...
A – Vá! Diga a todos o que tem me repetido aqui – me parece que você nem tem certeza disso.
B – E quem disse que é de certezas que precisamos? A certeza é o fim do debate! Coisa que não se vê nessas assembléias. Você fala em contradição. É óbvio que é contraditório. Na nossa sociedade, parece que a liberdade só se constrói sendo “reacionário” ou “revolucionário”. Ser “ário” nenhum, ou ser tantos outros, não seria uma liberdade mais real, embora menos palpável? Você fala em defesa da liberdade como “fim” máximo e absoluto da disputa estudantil, e sequer me dá o direito de escolher ficar aqui em casa, libertando-me por vias outras, que não as de sempre. É contraditório porque estamos embebidos na necessidade das respostas prontas. Qual é o problema em não ter respostas prontas? Qual é o problema em libertar-se pelo vôo solo, pela não-resposta? Problema algum, a mim parece... E se há problema, não é menos triste que a eterna obrigação de escolher sempre entre o “sim” e o “não”. Lembra daquela quadrinha do Quintana que eu escrevi lá no muro do quintal? Vai menino, vai “passar” com os outros, eu já “passarinho”, e nem sei se me liberto mais... Bom, talvez...
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Image Hosted by ImageShack.usLerdo, em suas viagens, passou por várias cidades universitárias. Em todas elas, deveria ter presenciado diálogos muito parecidos com esse, com variações apenas no sotaque. Mas não presenciou.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Enlacemos as mãos

Lembro de estar sentando na calçada, esperando minha vez e, ao ouvir a moto de meu pai se aproximando, correr para o meio da rua, antes que ele pudesse perceber. Gritava ao garoto com a bola que a me entregasse urgente. Dominava-a desajeitado e corria em direção ao gol. Meus amigos jamais se opuseram a que eu passasse por todos eles sem qualquer resistência. Com meu pai já próximo, eu chutava e o goleiro fingia um movimento espalhafatoso parecendo tentar defender. Gol feito e eu, tomando o cuidado de observar se meu pai via a cena, corria comemorando: "É de Pelé!". E ele respondia antes de desligar a moto que eu continuasse assim, mostrasse a eles, meus cúmplices, veja só! Nenhum deles – nem um de seus pais, sabedores da trama – se atrevia a dizer algo. Carência não se explica, mas dela se sente pena. Meu pai era um homem ocupado, algo que eu me negava a entender. Assim eu dizia aos que questionavam sua eterna ausência. Não aparecia sequer para meu futebol de rua nos domingos de tarde.

Estive a considerar essa história. Risquei-lhe os traços cômicos, amigo. Para a tragédia as pessoas dão o devido valor. Não poderia minha história ser tachada brincadeira. Conto-lhe ainda comovido. Mas não me atrevo a interpretá-la. O que eu queria afinal com aquela encenação? Sabia de antemão o resultado, um grito de longe que já de há muito nem sequer arrepiava meu coraçãozinho. No entanto, eu martelava a mesma farsa dia após dia. Em vão. Tinha cinco, ou seis anos apenas. Incrível como o tempo demora a passar quando ele nos erra! E eu estou aqui: Doutor César Augusto, quem diria? Toda a minha juventude a mesma mentira. Respostas não tenho, não vale a pena.

Meu pai morreu há dois anos. Teve, ao menos, tempo para conhecer meu filho. Meu filho. Esse não sofrerá como eu. Não é justo. Quando se aprende a levantar, é preciso ajudar outros caídos. Sei que sim. Se eu puder, meu filho jamais cairá, não naquela intriga, naquela falácia, aquela euforia emprestada que eu me esforcei para chamar de infância feliz. Olha, talvez você jamais entenda isso, esse seu coração... O meu carecia de um "bater" que não era dele. Por isso sinto falta daquela rua, lá tive verdadeiros amigos, que, sem saber o porquê, tentavam dar-me vida. Como eu gostaria que esse seu coração pudesse bater forte como o motor daquela moto que eu esperava aflito, mas está você aí... Se tudo der certo, prometo visitar você, levarei meu filho, jogaremos bola e teremos vida. Mas me dê licença agora, que meu celular está tocando. Veja só, é minha esposa. Ela deve estar preocupada, afinal, estou a mais de trinta horas aqui nesse hospital. Vou chamar a enfermeira para te acompanhar.

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Image Hosted by ImageShack.usLerdo ouviu esse monólogo quando visitava crianças em um hospital de Florianópolis. Soube de um médico que conversava com os pacientes do pós-operatório, quis conhecê-lo. Mas o médico precisou voltar correndo para casa. Seu filho havia sido campeão no futebol e queria comemorar com toda a família. Nosso furgão ficou ainda algum tempo com o rapaz que escutou toda a história. Era filho único. Seu coração reagia bem.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Desembocadura

Se ele soubesse o estrago que a bala fez, não perderia tempo pensando tantas besteira. Que grande maçada! Foi dar ouvidos ao Cosme. Aquele vagabundo não consegue nem se fuder sozinho. Tinha que levá-lo de gaiato? Tinha que aparecer logo agora que Maria deu que queria uma geladeira? Para que geladeira? Não têm nada para pôr dentro. E odeia água gelada, porque dói o dente. Mas compensava o filho que Maria sonhava em ter. Cosme desgraçado! Nos segundos entre o disparo e a completa escuridão, só conseguia pensar no que não realizou. Não deu filho para Maria. Nem geladeira. Que nome teria? Não era hora de pensar nisso. Também, se tivesse um filho, a coitada hoje ia ser mãe solteira. E feia daquele jeito, com um moleque embaixo da saia, não arrumava outro pra dar teto. Mulher, quando o homem fecha, abre o olho. E esse soldado que não parava de olhar para ele? Até parece que não matou um corno sequer na vida! Ele também seria macho com uma pistola daquela na mão. Atrás de arma, até cachorro dá por boi. Fosse estourar a testa de outro e lhe deixasse agonizar no chão quente. Assim ao menos estaria livre para pensar nas idiotices que o levaram àquela posição humilhante, travando o trânsito, viuvando Maria, sujando a rua. O que Maria ia dizer de tudo isso? Na certa ia condená-lo por não abandonar de vez a companhia do Cosme. Malandro que é malandro sabe bem a hora de se fingir de santo. Não podia ter dado essa mancada. Não agora que estava a ponto de largar tudo a aceitar aquela mão do Marinho. O Marinho no dia seguinte já estaria procurando outro. E ele ali, tendo que ser carregado para vala de indigente. Ia ser carregador, ia ser gente. Mas agora, estava ali pensado na desgraçada da Maria. Para onde a Maria ia? A mãe ficou em Minas. A louca da irmã está presa. Era um idiota. No chão, morto, enterrado sem dente inteiro, mulher sem saúde e pensão. Na certa ia fazer dó no Diabo. Diabo de malandro é malandro mole. Cosme seu infeliz! Viu o que você fez para ele? Quando se pensa demais, morrer é demorado. É hora de ele fechar os olhos, é hora de ele esquecer que Maria estava viva. É hora de ele esquecer que existiu. E o infeliz do Cosme escapando pelo muro do beco. Diabo ligeiro.

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Image Hosted by ImageShack.usLerdo vinha descendo a BR153 para deixar carne-de-sol no porto de Itajaí. Já não via a hora de chegar e dar um mergulho. Foi quando um moço de Curitiba pediu carona e começou a choramingar essa história. Ele achou bem confusa a coisa toda. O furgãozinho ainda não se acostumou com esse jeito trágico que os curitibanos vêm cultivando.

sábado, 3 de novembro de 2007

Capítulo XIV: Vidas Semi-úmidas

Fabiano chegou a São Paulo carregando no ventre Vitória uma história. História cheia de comida, água e luz. Sinhá Vitória comemora a derrota do nordestino. Porque o gaúcho ainda brinca? Então é por isso que se desce o sertão? Humilha-se uma família por tão nada? Beijou a mão de um destino que não escolheu. O menino mais novo tossiu de falta de ar. O menino mais velho deu risada da puta na esquina. Então é assim que se ganha a vida no sul? Porque São Paulo é o sul do retirante. O mais frio sul possível. Fabiano quis chorar, sentiu falta da Baleia. A Baleia carregava preás na memória enquanto vivente, ele nem isso. O céu da Baleia era mais paraíso que a Praça da Sé. E a fé se foi emborando... emborando... até que emborou pra sempre... embora não fosse fé o que se buscava aqui, Fabiano dela precisava.

O Soldado Amarelo virou cinza, a fuga virou escape, a areia virou concreto, mas a vida ainda era a mesma caatinga. Fabiano quis falar, mas não falou, não era bom com palavras. Então se condena um homem ao sul mesquinho por tão pouco? Então o sul é um São Paulo sem dono? Quem vai nos pôr no lugar? O menino mais velho viu uma vaquinha colorida na calçada. Há tempos não via uma tão gorda, o sino não tocava. Moleques de sapato colorido. O menino mais novo dormia e acordava pra comer o que não se tinha. O Soldado Cinza veio expulsá-los. Sinhá Vitória estava vencida. Venceu o sul, o sal de São Paulo.

E a fuga é só mais um nome que se dá ao desespero de não se pertencer ao que te é lar por direito. O Nordeste pode ser bonito. Feio é não querê-lo, como não o quis, por alienação comprada, os fabianos, as baleias, as sinhás vitórias, os meninos velhos e novos que aportaram num sul que morre da desesperançosa esperança infundada. Dorme sob a ponte, para acordar sob o mesmo céu de garoa. Sem reclamar. Então é isso que um sertanejo vem fazer aqui? Se soubesse lá ficava. Para amar o que é meu, e dele tirar proveito. Ah, vida que só é vida nos calcanhares dos outros. De ti não se quer nem as mais repetitivas bem-aventuranças.

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Image Hosted by ImageShack.usLerdo acaba de passar pelo sertão das Alagoas. Lá descobriu um velhinho chamado Graciliano. Foi esse senhor simpático quem ditou essa história para nosso querido furgão. Pediu para que espalhássemos por aqui que o sertanejo continua retirando... Lerdo ainda não sabe, mas conheceu um santo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Antigando a vida

Viver é passar. É, seu moço. Minha história vai cambaleando, cambaleando, devagar descendo, devagar descendo... E quando estiver descida de todo, eu decido dar fim, seu moço. As formigas trabalhando e minha vida não faz sentido. Aeromoça viajando e minha vida não faz sentido. "José" bebendo na esquina e minha vida não faz sentido, seu moço. Se eu bebo, se eu viajo, se eu trabalho, seu moço, é pra dizer lá em casa que não ando à toa. E eu ando, seu moço. Dizem que esse negócio de eu falar com coisa é porque tô ficando doido. E o senhor é coisa. Mas me diga, seu moço: faz sentido fazer miséria assim de um pobre lacaio como eu? Faz sentido, seu moço? Miséria? Responde não, seu moço. Eu queria acordar longe da vida, passear na estrada longe da vida. Longe da vida, em boa hora, cruz na linha da mão, resposta confusa, rádio, porta e farol, seu moço. Minha crise ia ter desculpa. Me desculpe, mas tem desculpa , seu moço? Tem não, seu moço. Minha vida ia ser estúpida, mas eu ia me dar muito bem com isso. Porque no fundo, seu moço, nós somos todos estúpidos. A vida é música ruim, seu moço. Música de igreja mesmo. Ruim. O senhor me perdoe, mas hoje eu tô triste por demais. Minha filha amanheceu com saúde, mas continua com aquele negócio de que não gosto dela. Faz razão, seu moço? Faz não, seu moço. Eu amo aquela menina. Não fosse ela ainda tá sendo gente, eu já teria me matado. O problema é que a gente não se conforma. Outro dia mesmo eu apaguei a vela com cuspe. Eu sabia que não queimava o dedo. Mas eu não tinha nada pra fazer, seu moço. O senhor tinha? Tinha não, seu moço. O senhor sabe como é. A vida é não ter nada pra fazer. Nada do que a gente gosta. Deixa explicar. Eu, por mim, continuava desinventando as coisas. Eu ia pôr cauda de cometa em cachorro cotoco, seu moço. Eu ia se me deixassem. Eu ia dar uma mão pra João-sem-braço. O senhor ri, né seu moço? O senhor acha engraçado. É porque o senhor existe do jeito bom. Eu não, seu moço. Minha existida tá cada vez pior. Eu tô desistindo de existir. Eu desistia se me deixassem. Mas a vida passa, uma hora ou outra. Viver é passar? É sim, seu moço...

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Image Hosted by ImageShack.usLerdo me trouxe essa história de Ilhéus, quando esteve por lá comprando tempero baiano para contos picantes, os quais não sei se contarei. Diz ele que a ouviu de um senhor que, dizem por lá, conversa com máquinas. E o Lerdo (e curioso) quis saber sobre a vida dele. O nome do senhor é Jorge. Dizem que por lá todo mundo o ama bem, e a alma dele vai viver nas gentes...

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Tramas

- Como faremos para que ele não nos veja?

- Relaxe... A essa hora, o máximo que ele consegue é se virar para o lado. Não acorda mais.
- Ainda assim é perigoso, você confia demais na sorte...
- Já te disse, venha comigo, dê a mão aqui... Faz tempo que você não vem pra cá... Estava com saudades.

O diálogo construía-se pé ante pé. A voz, quase a sumir, servia apenas para corroborar um movimento de lábios mais que suficiente. Os gestos diziam o que o coração preferia esconder. Como sentiu falta dele! Todo esse tempo e ela não conseguia esquecê-lo um só dia! E agora estava ele ali. Parecia mais forte, mais saudável. A sua presença preenchia um vazio de há muito.

- Eu ainda te amo, apesar de ter me abandonado, nunca te amei tanto.

Sua ausência era seu charme.

- Silêncio! Se ele acordar estamos fudidos!
- Já disse que ele não acorda. Fica tranqüilo.
- O que você pretende?
- Diga você! É idéia sua...
- Antes tire essa camisa, veja só: ensopada de suor.
- Não havia ar condicionado no ônibus... E ele? Não mudou nada!
- O mesmo mané de sempre. E eu não largo...
- Você não consegue mais... Tem certeza de que isso não é arriscado?
- Se você perguntar novamente sou capaz de desistir...
- Não, não.

Sem que o tal mané soubesse, sua esposa tramava, praticamente aos seus pés. Tramava com aquele que durante tanto tempo, e nada secretamente, dividiu o coração dela. E ainda dividia, se é que não o tomava de arrasto! Estranha fixação das mulheres nos amores antigos. Justo ela, que jurara jamais tornar a dirigir-lhe a palavra, desde o dia em que ele, num rebentando de juventude, a deixou. E agora ali, os dois, ao pé do mané, como prontos a atacá-lo. Ela segurava a faca na mão esquerda. Ele, ainda com aquele rosto jovial que o marcava tanto, não mais voltaria atrás, e mesmo sabendo que seu pai jamais aprovaria... acendeu a luz!

- Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida... E pro Manuel nada?
- Tudo...

Enquanto sua esposa cortava o bolo, Manuel esfregava os olhos... E, numa mistura de surpresa e alegria, disse apenas:

- Filho! Você voltou... Que merda! Odeio festa surpresa, e odeio ser acordado...

E se riram.

sábado, 4 de agosto de 2007

"Sozinho" (para relembrar)

O sol acabara de se pôr. Eu, para variar, escolho um bar mais afastado de casa. Anseio algo diferente. Caras novas. Um atendente se aproxima, descobrindo um cliente novo. Gentil como se deve ser em casos assim. Peço uma cerveja. Não demora nada. Começo a rabiscar frivolidades num papel. Quem sabe um novo poema não me venha, um esboço de crônica. Já não se paga tão bem aos que vivem de escrever. Mas como não sei – e não quero – fazer outra coisa, continuo. Um gaitista sola triste, numa mesa próxima à minha. O bar ainda está vazio. Pergunto se é sempre assim, o mesmo atendente explica: “daqui a pouco isso aqui tá lotado, moço. O happy-hour daqui é famoso”. Peço desculpas pela ignorância e o dispenso. Chega um rapaz. Corpo franzino. Senta-se sozinho no balcão. Cumprimenta o barman e pede algo para beber.

Já é noite escura. Dessa mesa, o pouco que vejo é seu corpo minguado atirar para o lado que aponta. Por quê? Que estranha é essa necessidade de se ter alguém? Embebido em promiscuidade e carinhos passageiros. Uma garota se aproxima. Sozinha. Ele oferece uma cadeira. Um copo. Aproxima a boca feia do ouvido. A cena é ridícula. Não pelo que diz. Não escuto. Mas pelo rosto enfadado da moça. E pela diferença quase cômica de altura. Se recostasse um pouco mais, julgaria por miopia que um filho quer a atenção da mãe. E não deixa de sê-lo. Pelo menos assim parece. Um ser pequeno e solitário. Como o são quase todos os que, desprovidos de qualidades físicas, apelam a uma retórica de conquista. Que não funciona, pois não domina.

Troveja alto. Esqueço a cena por um momento, embora com olhos fixos para aquele lado. Peço outra cerveja. Esboço um retrato no guardanapo. Não sei se por cansaço ou falta de interesse. Certo é que congelo a cena e tento expressá-la em traços leves, ruins na verdade. Sou atrapalhado pelo constante balançar do corpinho desesperado. E pelo recostar-se, fugir, da garota. Acuada a um canto que parece único. O que ela ainda faz ali, desconfortável? Não é como andar na chuva – e agora chove fino – em uma rua larga e sem cobertura. Quero levantar-me. Não para o aparte. O que me constrange e agora aflige é que a infeliz não some. Não arreda. Dá esperanças que não existem a um garoto que dela necessita, ao que parece. Queria não estar aqui. Mas não posso lutar contra a vontade de saber o desfecho. Talvez para um dia poder contar a história inteira. Aquele rosto de desprezo. Aquele rosto...

A chuva aumenta, não posso mais sair, ou não quero. Peço algo para comer. Outra cerveja. A luta continua. A moça não muda. O rapaz, esse sim, parece tentar outra coisa. Afasta o corpo. Pede duas bebidas. Bebe rápido. Parece comigo, quando as palavras faltam e vou ariscar-me na embriaguês. “Parece comigo”. É quando isso me vem à cabeça que percebo toda a atração da cena. Vejo-me de fora. Vejo-me naquele eterno sussurrar infrutífero de sempre, de quem não sabe o que faz. Começo a reparar mais na moça, já que do rapaz adivinho todos os atos. A cara de enfado aos poucos se dissipa. Ela começa a falar. Agora é ele quem não reage. Gestos amplos, sorrisos e goles. Dialogam enfim, o clima é ameno. E aquele ímpeto inicial? Onde estará?

A chuva diminui, percebo. Ele pede a conta e paga tudo. Ela não esboça qualquer reação contrária ao gesto, parecia antevê-lo. De repente se levantam. Sorriem, dão-se as mãos e saem, sem nada dizer. Pude ouvir uma risada espontânea já na porta. Com certeza o rapaz pensa que conseguiu, enfim. Mas aquilo me incomoda ainda. O que terá ele dito? Feito? Como foi que se deu? Dirijo-me ao balcão. Chamo o barman que os atendia. Questiono: “conhece aquele dois?”, “sim, casados, vem sempre aqui”, “discutiam?”, “besteiras, coisas do trabalho deles, sempre passam aqui antes de ir pra casa”. E foi como se o meu dia piorasse. A chuva acaba. Reconheço que o problema está em mim. Eu sempre junto à minha solidão. Pago a conta e saio pensando: “sou mesmo um idiota”.

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