quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ensaio sobre a ausência

No minuto em que Mara prometeu a si própria que jamais deixaria aquele banheiro estava selado o destino de todos os povos. Fosse apenas não deixá-lo, os problemas não atingiram tão desmesurada forma, porque seria uma resolução solitária, sem qualquer chance de afetar o cosmos ou sequer a própria familia já acostumada às insólitas decisões da jovem. O que não sabiam os próximos é que a garota resolveu propagandear malfadada atitude. É natural que tenhamos impulsos os humanos, e aqui a silepse confirma apenas minha posição de contador, minha não vivência carnal, ainda que a atitude afete a mim e a meus pares de modo indireto. Nós narradores dependemos quase inteiramente da boa vontade e da busca incessante pela história perfeita que perpassam as mentes autorais, e sem elas nada somos. Contudo, a história é sobre Mara e apenas ela agirá, como fez ao convidar para testemunho integral os jornalistas ordinários, que se aventurassem pelas improprabilidades cotidianas, e que quisessem, de modo a aumentar audiência por vias escusas, atestar o indizível. Indizível sim, tal foi o gesto da garota. E sua idéia tresloucada era que as demais mulheres em idade fértil sentissem como por magia o mesmo impulso pouco ajuizado de não mais entregar-se ao mundo. E o mistério maior é saber que o projeto alcançou dia após dias mais seguidoras, até que não restasse no mundo que se conhece uma só mulher que voluntariamente se entregasse ao ato sublime da procriação. Porque ficou claro pelas regras estabelecidas por Mara, já quase uma nova messias, que ninguém além da própria mulher poderia entrar no banheiro selecionado para o claustro, o que fez com que grávidas desavisadas fosse obrigadas a esperar o parto terminar antes da viagem à solidão. Algumas mais engenhosas criaram inclusive sistemas de ventilação e passagem de alimentos que vedassem qualquer homem mal intencionado de forçar a entrada no desespero do coito há muito cessado. Pronto e feito o destino, em cerca de 100 anos, que é idade já passada para se morrer, toda a humanidade estaria acabada, salvo um ou outro relutante em vias de deixar a vida resistindo ao fim óbvio, que sejam então 120 anos. Era esse o tempo que o homem ainda teria para terminar uma história que até o desvario mariano parecia eternamente interminável, mas não era. E agora, passados mais de 90 deles, eu, seu narrador, apresso-me a deixar esse relato ao limbo, visto que os leitores são já escassos e enxergam mal. Poucos acreditariam-me não fosse a constatação de andar-se à rua e não encontrar alma viva a perambular, restando poucas senhoras ainda em banheiros, que a uma dieta respeitável passam já a marca centenária e teimam em lá permanecer não fazendo a sua e as próximas vidas. O que ainda é pouco sabido, visto que os poucos sabedores já desabitaram esse lado da fábula sem questão de a história transmitir, é que Mara, dias antes de vir a falecer, deixou seu condenável gesto de lado para passar os últimos dias a caminhar pelos quintais de sua própria casa, talvez na tentativa de revigorar os pulmões após anos e anos a respirar o odor muito desagradável de que tem fama os banheiros. Se nunca sobre isso se falou, foi porque a nossa protagonista pediu às poucas testemunhas oculares que guardasse segredo sobre esse último e já mais compreensível gesto. Não queria passar por covarde, ou pessoa sem palavras. E foi assim...
____________________________________________________________
Image Hosted by ImageShack.usLerdo esteve recentemente em São Paulo carregando materiais para a filmagem de um certo Blindness. Lá conheceu um senhor José que diz ter escrito a história daquele filme. O senhor respirava com dificuldades, mas foi capaz de contar essa história com uma vivacidade incrível.

3 Resposta(s):

Stephanie disse...

Zé,

esse seu xará é muito danado. Seus ensaios sobre cegueira e lucidez me deixaram completamente chapada.

Sabe quando você lê um livro e não consegue ver a vida do mesmo jeito depois?

a única coisa que me intriga nesse seu texto, é qual seria o grau de desespero dessas mulheres para desistir do sexo. Da procriação tudo bem, anticoncepcional taí pra isso. Mas do sexo??

ninguém desconfiou da sanidade da Mara?

beijo

Stephanie disse...

Zé,

realmente tem horas que a gente não pode se deixar ficar são.

mas é que há algumas loucuras que para mim, ao menos, exigem demais do ser humano!

beijo

Lalá disse...

Um Ferreira escrevendo como um Saramago? Gostei! me lembrou bastante de ' As Intermitências da Morte ',
senti pena da Mara e de todas as outras mulhere trancadas em seus banheiros por mais que não devamos sentir pena daqueles que escolhem seus próprios caminhos...
vou continuar lendo o que aqui você escrever!

Clicky Web Analytics