sábado, 1 de setembro de 2007

Kitsch and Hype (Conscience and Decadence)

Cada nova exigência de concentração é um passo rumo à completa incapacidade em se concentrar. Cultura de massa, modismo, semi - formação, resumos de Internet, macetes, edições comentadas e manuais de funcionamento. A crise do indivíduo é social, antinomia natural. Vive-se o tempo da contradição. O indivíduo não se concentra, o "público distraído" nunca tão distraído. A arte, por muitos julgada emancipadora, desfaz-se em duas, não melhores uma em relação à outra, diferentes na forma, idênticas nos problemas que apresentam. E criam, para que as consumamos, dois grupos de "apreciadores" (leia-se: receptores passivos) também diferentes. São dois os caminhos da arte, que a tornam a ausência de si mesma.

O Primeiro, mais comum, todos conhecemos e insistimos que ("ai se fosse o meu!") não é digno de ser considerado caminho artístico. E o é. O que Beyoncé, Michael Bay, J. K. Rowling, tem em comum? Todos acreditam estar criando arte, de fato. A música, o cinema, a literatura, reproduzem hoje, ainda que veladamente, ideais de consumo e controle que esses artistas assumiram como verdade. O fazem sem medo, não duvidam da própria inteligencia, mas da do público "consumidor". O que podemos fazer? Coisa alguma. Melhor uma criança que lê Harry Potter do que uma que nada lê. Queria eu que todos os adolescentes do planeta tivessem o prazer de assistir a Transformers num sábado à noite, quando sei que a grande maioria perde-se em maneiras de matar a própria fome.

O Segundo, virtuoso do mundo alternativo, se auto-intitula superior. Discorre sobre sexo, drogas, triângulo amoroso, pobreza, magia e violência (mas os outros também!), a temática do vencido ou a do vencedor? Tanto faz, como tanto fez! O Segundo propõe a crítica que o mundo do consumo aprendeu a se auto propor ("se você não faz escolhas óbvias, deve dirigir o mesmo carro de 50 mil reais que eu" é o mesmo que "todo mundo aqui nesse cinema é idiota, inclusive você"). Morrissey não é melhor que Beyoncé, Paul Thomas Anderson não é melhor que Michael Bay, Ferreira Gullar não é melhor que J. K. Rowling. E não são melhores porque, ao fazer a crítica, tornam-se herméticos demais para insurgirem emancipadores, restringem-se a um público que deles não necessita, ao menos como pedagogia. Em outras palavras, arte emancipadora é arte de elite intelectual, elite intelectual é emancipada por vias outras (questionamento filosófico, leituras políticas, engajamento, influência familiar, sorte, etc.). Quanto mais queijo menos queijo! Não bastasse isso, explodem cópias dessa pretensa arte melhor. Cópias que se produzem aos moldes da industria descrita no parágrafo anterior. Hype, Hype and Hype.

Não estou, como parece, defendendo a banalização, simplesmente porque duvido de sua existência. A arte é a mesma sempre. A única arte emancipadora e transcendental foi a pintura que aquele primeiro homem, consciente de seu dever de educador, fez da própria caçada, e ensinou seus filhos. O mesmo homem que soprando um pau oco fez música e descobriu que ela atrairia, por semelhança de sons, algumas aves que serviriam de alimento à família. De lá para cá, a arte é consumo. A Capela Sistina foi financiada pela Igreja Católica corrupta, a alta sociedade germânica pagou por cada nota de Mozart, Machado de Assis ficou rico escrevendo. O que eu critico é o ímpeto com que certas pessoas, sob o manto da superioridade, criticam aqueles que perceberam que no fundo, a arte nunca foi outra coisa senão uma maneira mais saudável de repor as forças, após um dia estafante de trabalho.

De minha parte continuarei a ler Gullar, assistir a Anderson e ouvir Morrissey. Não que eu negue completamente a turma do primeiro grupo, eles também são legais, mas eu me acostumei, de ser intelectualóide chato, àqueles que antes eu imaginava serem a única forma de arte possível. Hoje eu mudei, minha aproximação com arte não! Sem qualquer relação com qualidade, porque isso pouco importa. Questão de gosto... só de gosto... Sejam felizes.

16 Resposta(s):

M. disse...

"Questão de gosto... só de gosto... " e opiniões.

Jun disse...

Adorei o "intelectualóide chato"..haha..mas acho q vc tá longe disso (pelo menos da parte do chato..hah)

Pode ser até senso comum mas sim "gosto ñ se discute" e no final o importante é ser feliz e ponto.

Bjinhos Zé!

marcos disse...

como eu sempre dizia, não podemos falar que Harry Potter é ruim, estaremos assim chateadno milhares de crianças e adolescentes pelo mundo. Não podemos compará-lo a outros livros também, ele é único. Pensei nisso quando ouvia Michael Jackson, era fã dele quando criança e até hoje ouço algumas coisas de vez em quando, me faz sentir bem. Existem muitos músicos melhores do que ele, compositores e cantores, e ele também não faz nenhuma música "cabeça". Black or White não fala de racismo por incrível que pareça. Mas Michael Jackson é bom para MEUS ouvidos, não me importa se seja ruim para outros. Assim como Harry Potter, Pokemon ou qualquer outra moda que existe hoje. Falando-se em moda, ela se passa mais rápido do que antigamente, estamos enjoando mais rápido das coisas, "rápido" é a palavra. Bem, já estou entrando em outro assunto. Contudo é isso, de acordo com um antigo provérbio holandês: Gosto é igual a cu, cada um tem o seu.

Paulo disse...

Pois é...eu transito muito entre esses dois lados...Afinal, nada mais mainstream que Beatles, certo?
É como diz o velho gaudério H. Gessinger, "A propaganda é a arma do negócio/ No nosso peito bate um alvo muito fácil/ Mira à laser, miragem de consumo" O foda é a turminha descolada que diz que era legal quando o Cachorro Grande tocava nbo quintal da casa deles, agora que tá na MTV a banda se vendeu e tá uma merda. Mas engraçado que o som dlees continua o mesmo, aliás, melhor, eles estão cada vez com mais personalidade!
Então, aprendam, crianças, se vocês querem que sua banda seja legal e descolada, não divulguem! Deixem que apenas meia dúzia de pessoas conheçam o som e vangloriem-se disso!
Pro inferno com isso!
O que eu quero dizer é:
Foda-se! Enquanto o artista faz o que faz com sinceridade. Pode ser o Michael Bay e seus roteiros insípidos, pode ser o Stravinsky, o Fernando Pessoa...
Se eu achar ruim, vou dizer que é ruim, seu eu achar que é bom, vou dizer que é bom. E pronto.

Parabéns pelo texto, Zé...ficou muito bom!

Vini disse...

Sou muito suspeito para falar sobre isso, mas vou deixar aqui a minha opnião... eu procuro deixar de lado tudo que me é imposto e apreciar o que me faz bem no caso da arte principalmente, isso em todas as suas vertentes, e como disse o Paulo: "Se eu achar que é bom, vou dizer que é bom..."

Zé(d's) Dead, Baby disse...

isso isso isso!

paula disse...

a cultura, que me parece um meio de expressar algum "barulho interior" que incomoda - e toca! - a todos os seres humanos, foi, historicamente, elitizada. motivo?! boa pergunta. sabe-se lá porque, algo que cabe (em entendimento) a todos ser motivo de superioridade... e que ainda acabou gerando o so called pedantismo, entre outras posturas vazias.
mas parece que toda essa velocidade, que a modernidade propicia, e nos vende a todo instante, quer reafirmar isso ou aquilo; que tal maneira de expressão é melhor, ou mais válida, que outra. e você tem que ser assim ou assado, pra poder ter alguma significação, algum rótulo, fazer parte de algum grupinho... para ser alvo de tais ou tais propagandas, etc etc etc.
desde que a cultura se tornou tão industrial, ou a indústria se tornou cultural (como já nos disseram os teóricos críticos do séc. passado), virou mercadoria explicitada e taxativa.
eu ainda acredito, ao menos quero acreditar, que bom é aquilo que me toca, que eu consigo sentir, que me faz um bem tremendo, ou me causa um mal-estar tão grande que não pode ser desconsiderado. e principalmente aquilo que me faz pensar (no sentido mais amplo que isso possa ter!).
opiniões filosóficas sempre resultam em pontos de interrogação. aos montes! assim, tenho medo de me perguntar o que seria 'O gosto'. se este é positivamente determinado, se é influência social... na verdade, pouco me importa! caí na filosofia por motivos diversos, de curiosidade extrema até uma mania - que atinge a muitos, rs - de bancar de intelectualóide. acabei me deparando com tantas coisas e posso dizer que mudei. mas "inventei" de estudar Estética exatamente pelo caráter universal do gosto: é particular! e de todos!
gosto do que gosto, e é pra ser redundante. se outras 250.000 pessoas compraram o mesmo cd que eu, ou lotaram salas de cinema na mesma estréia... meu ego poderia gritar um tant pis por eu não ser "tão especial assim". mas, na verdade, grito um tant mieux!!! e de alguma maneira isso me conforta: eu não estou tão sozinha assim no mundo...

um beijo, meu querido!

Paulo disse...

Pensando ainda no assunto...
Saca, o lnce é que as coisas acabam por se misturar. Veja o caso de um Odair José, um Wando...Vai explicar esses caras. Quero dizer, sem um esquemão de marketing de grandes gravadoras, esses caras tem um número enorme de fãs...e de repente, sai um disco tributo ao Odair José com bandas cools como Mombojó e Suzana Flag e de repente o Oda é "respeitado". Então, e aí, qual é o critério pra ser do primeiro ou do segundo grupo do teu texto, Zé?
E essa coisa de um monte de gente gostar das mesmas coisas que eu...porra, eu acho do caralho! Imagina se em todos os churrascos que eu fosse, eu não precisasse insistir para ouvir Engenheiros do Hawaíí ou Thee Butcher's Orchestra! Eu quero mais é que as bandas que eu gosto toquem no rádio, na MTV e onde mais precisar...simplesmente por serem bandas boas!

Zé(d's) Dead, Baby disse...

o critério para estar nos grupos 1 ou 2 é simples:

Cultura de Massa: primeiro grupo!
Cultura Alternativa: segundo grupo!

cultura de massa não quer dizer cultura popular, quer dizer de alcance bem considerável...

Odair José, no caso citado pelo Paulo, é segundo grupo, ainda que amado por donas de casa populares... é que pras donas de Casa ele é conforto, e praqueles que ouvem e respeitam só quando sai tributo é Hype!

Paulo disse...

Não sei, Zé. Ainda acho tudo meio ambíguo.
Roupa Nova, por exemplo. É cultura de massa, mas é uma banda muito respeitada por muita gente "cool". Ao mesmo tempo é cultura popular igual o Odair José.
E o Ronnie Von? O Ronnie Von apesar de estar no ostracismo (musicalmente) tem a meia dúzia que conhece a obra psicodélica de 67, 68 e o tem como gênio...mas em geral ele é tido como brega. O que quer dizer que ele não é nem uma coisa nem outra...
E pra mim, existem milhares de casos. Alceu Valença, Bezerra da Silva, e bandas como RPM, Ultraje a Rigor e até mesmo os Engenheiros do Hawaíí...
Por isso prefiro dividir tudo em coisa boa e coisa ruim, porque, apesar de ser uma tendência nossa, rotular isso tudo é uma merda.

Zé(d's) Dead, Baby disse...

Paulo... vc tá querendo regularizar exceções! É claro que existem certas manifestações artísticas que não se encaixam facilmente neste ou naquele grupo. Simpsons por exemplo!!!!!!!! Precisa dizer mais algumas coisa. Se ainda vc quiser me negar, eu tenho outra explicação:

Roupa Nova é uma banda típica do primeiro grupo (indústria cultural), que intelectualóides como nós insistem em enfiar no segundo grupo (indústria do cool)... ou não é...

Ou ainda, é só observar que vc não citou nenhuma coisa recente (as mais novas contam já 20 anos!). O que é popular em uma época, pode vir a ser cool em outra e vice-e-versa. Restrinja o que eu escrevi ao século XXI globalizado e totalitarista! Mesmo assim, ainda haverá exceções!

Paulo disse...

Tá certo...
Essa mania de ser chato na comunidade do Berlin tá me contagiando...hehehe...Tu tá certo.

E olha que eu ia citar o Chaves no meu comentário anterior e esqueci...

Zé(d's) Dead, Baby disse...

chaves e simpsons... mesma explicação

Natália disse...

Simples assim...só vou comentar isso...gostei!

kim disse...

Gostei bem ! Já me aventurei na leitura e tentativas de entender um pouco do universo das artes plásticas e das letras. Aprendi que minha imaturidade foi importantíssima no começo, para que depois, tirando toda a crueza de meus entendimentos posteriores, eu pudesse analisar pessoalmente o assunto. Nunca fui lá muito pragmático nessas questões, mas gosto de sempre lembrar do elemento humano. Por isso é bom lembrar do homem que desenhou na parede suas aventuras de caça, fosse em caráter pedagógico, fosse o que fosse ... Além disso, por exemplo, hoje em dia e nem tão hoje em dia assim, a pessoa tinha que ter contatos, estar inserida, estar no meio, por assim dizer... qualquer um que tivesse no meio de Andy Warhol naqueles seus anos era gênio. Anos antes, muitos que perambulavam por Paris também. Por isso Duchamps pode ser interessantíssimo, em certo sentido. Algo interessante é saber que os maiores entendidos, de Wagner a Mondrian, e Schakespeare e por aí vai, são de um metier onde é comum que pessoas desfilem com cabeças de chinchila penduradas pelo corpo, algo que se fazia na era do gelo por fins que nada tinham de galmourosos ...

Aquele abraço Zélino

kim disse...

ops ... troquei anteriores por posteriores ...

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