quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Desembocadura

Se ele soubesse o estrago que a bala fez, não perderia tempo pensando tantas besteira. Que grande maçada! Foi dar ouvidos ao Cosme. Aquele vagabundo não consegue nem se fuder sozinho. Tinha que levá-lo de gaiato? Tinha que aparecer logo agora que Maria deu que queria uma geladeira? Para que geladeira? Não têm nada para pôr dentro. E odeia água gelada, porque dói o dente. Mas compensava o filho que Maria sonhava em ter. Cosme desgraçado! Nos segundos entre o disparo e a completa escuridão, só conseguia pensar no que não realizou. Não deu filho para Maria. Nem geladeira. Que nome teria? Não era hora de pensar nisso. Também, se tivesse um filho, a coitada hoje ia ser mãe solteira. E feia daquele jeito, com um moleque embaixo da saia, não arrumava outro pra dar teto. Mulher, quando o homem fecha, abre o olho. E esse soldado que não parava de olhar para ele? Até parece que não matou um corno sequer na vida! Ele também seria macho com uma pistola daquela na mão. Atrás de arma, até cachorro dá por boi. Fosse estourar a testa de outro e lhe deixasse agonizar no chão quente. Assim ao menos estaria livre para pensar nas idiotices que o levaram àquela posição humilhante, travando o trânsito, viuvando Maria, sujando a rua. O que Maria ia dizer de tudo isso? Na certa ia condená-lo por não abandonar de vez a companhia do Cosme. Malandro que é malandro sabe bem a hora de se fingir de santo. Não podia ter dado essa mancada. Não agora que estava a ponto de largar tudo a aceitar aquela mão do Marinho. O Marinho no dia seguinte já estaria procurando outro. E ele ali, tendo que ser carregado para vala de indigente. Ia ser carregador, ia ser gente. Mas agora, estava ali pensado na desgraçada da Maria. Para onde a Maria ia? A mãe ficou em Minas. A louca da irmã está presa. Era um idiota. No chão, morto, enterrado sem dente inteiro, mulher sem saúde e pensão. Na certa ia fazer dó no Diabo. Diabo de malandro é malandro mole. Cosme seu infeliz! Viu o que você fez para ele? Quando se pensa demais, morrer é demorado. É hora de ele fechar os olhos, é hora de ele esquecer que Maria estava viva. É hora de ele esquecer que existiu. E o infeliz do Cosme escapando pelo muro do beco. Diabo ligeiro.

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Image Hosted by ImageShack.usLerdo vinha descendo a BR153 para deixar carne-de-sol no porto de Itajaí. Já não via a hora de chegar e dar um mergulho. Foi quando um moço de Curitiba pediu carona e começou a choramingar essa história. Ele achou bem confusa a coisa toda. O furgãozinho ainda não se acostumou com esse jeito trágico que os curitibanos vêm cultivando.

3 Resposta(s):

mari disse...

Davi disse...

Tecnicamente não é impossível usar a BR153 para ir para Itajaí, entretanto vc teria que andar mais de 500 km no interior de SC pela BR 470, para chegar no litoral. O correto seria utilizar a BR 101 , que passa por Curitiba -PR.

Zé(d's) Dead, Baby. disse...

tudo bem... mas lerdo ainda estava no estado de são paulo... descendo por são josé do rio preto... acho que estava atrás de alguma estudante de matemática da unesp de lá...

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