terça-feira, 4 de março de 2008

Subjetivo

Mesmo nos textos em que a primeira pessoa mais aparece, o artista procurou sempre o impessoal. Sua vida era boa, portanto isenta de literariedade. Boa vida em literatura é dor e mágoa, sentimentos dos quais o artista há muito não se queixava. Eis por que esse texto pouco diz. Porque a arte é paradoxo. É impossível pôr-se a escrever sobre si mesmo quando se está em um estado eufórico de vida, nesse caso vive-se, e isso basta. No entanto, ante a tristeza o artista se vê nu e inconseqüente e, se escreve, não vai além das alegrias falsas que os outros não querem ouvir. Ou seja, é preciso estar são para dizer tristezas, enquanto se vive a alegria. E estando triste, a tristeza salta das páginas contadas para fazer parte da vida, e nesse caso, nem se vive, nem se escreve: sofre-se.

Se é confuso, paradoxal, contraditório, assim é por ser vida pulsante. O artista, instância desnatural, é no fundo homem como nós, sente como nós. Tendo diante de si uma pedra no meio do caminho, o artista procura superá-la. Se o caminho é sem percalços, não há mal em criar, em poema, uma pedra que desgaste a retina, visto que a vida vai tranquila e não exige esforços. Assim, na dupla missão de viver e escrever, o artista sempre põe a tristeza para fora, seja sofrendo, seja verbalizando.

Posto isso, é natural que o texto pouco diga, pois esse Zé(ds), narrador e eu-lírico de um certo José, não pode externar tristeza fingida enquando a mão que escreve, a do poeta e autor, está mais preocupada em externar a verdadeira. Sendo assim, Zé(d's) vai deixar por esses dias a literatura de lado, vai tentar deixar o mundo cósmico dos elementos literários para salvar seu patrão. O patrão é o José, que no exato momento em que realiza as mais promissoras vitórias profissionais, tem por dentro um coração de pedra, no caminho, estilhaçado.


(atualização em 09/03/08)
Já passou, já passou
Se você quer saber
Eu já sarei, já curou
Me pegou de mal jeito
Mas não foi nada, estancou

Já passou, já passou
Se isso lhe dá prazer
Me machuquei, sim, supurou
Mas afaguei meu peito
E aliviou
Já falei, já passou

Mas já passou, já passou
Recolha o seu sorriso
Meu amor, sua flor
Nem gaste o seu perfume
Por favor
Que esse filme
Já passou

(Chico Buarque)

5 Resposta(s):

danny disse...

me manda um e-mail (dayaneabreu924@gmail.com);
eu sinto vontade de contar coisas pra você.

beeijo; saudade.

Cissa disse...

quero ser que nem você quando crescer.

Stephanie disse...

é meio assustadora a consciência desse paradoxo - mass acho que quando a gente abraça alguma forma de arte como forma de viver, acaba se acostumando com ele.

Vira equilibrista.

Lalá disse...

Grande Zé...

Paulo disse...

Bah...tu sabe que eu acredito que ás vezes é vantagem ter um coração de pedra...É um troço que me faz falta de vez enquando.

Anração, mano! Finalmente consigo comentar aqui! Sempre dava pau!

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